
Nota de programa de uma das obras capitais do Romantismo francês. Predileções nacionais e estéticas à parte, esta obra revolucionou a linguagem da música instrumental e merece uma escuta atenta.
Sinfonia Fantástica
Hector Berlioz (1803-1869)
Composta e executada pela primeira vez em 1830, a Symphonie fantastique é uma obra-prima emblemática do período romântico na França. Expoente da denominada “música programática”, a composição instrumental associava-se às sugestões imaginativas do programa, uma espécie de roteiro inspirador da composição, que deveria ser distribuído antes da sua execução, sendo, segundo o autor, na sua nota à primeira edição da partitura, “indispensável para um completo entendimento do plano dramático da obra”. No entanto, na sua nota à segunda edição, em 1855, o autor já menciona a possibilidade de sua execução em concerto, sem o programa e salienta que a obra basta-se pelo seu valor musical, independente de qualquer intenção dramática.
A filosofia do Romantismo promovia uma estreita aproximação entre as artes, especialmente entre a literatura e a música, “a mais espiritual entre elas”. Berlioz, que além de compositor e regente, é autor de uma extensa obra literária e crítica, escreveu o programa de sua sinfonia com referências autobiográficas, situando-a entre a vida real e o devaneio, sob inúmeras influências literárias contemporâneas, como As confissões de Um Opiômano Inglês, de De Quincey, e o Fausto, de Goethe.
No primeiro movimento da Symphonie Fantastique, intitulado Devaneio, Paixões, após o largo de introdução, um allegro que nos remete à forma sonata, embora sem propriamente um segundo tema, é dominado pela idée fixe, o tema musical que sempre aparece associado à visão da mulher amada. Essa idée fixe percorre toda a obra, como um leitmotiv ou motivo condutor de Wagner, por ele influenciado. O segundo, Um Baile, é uma valsa brilhante em forma de rondó, permeado algumas vezes pela idée fixe. O terceiro movimento é o cerne da obra e o ponto crucial da condução do drama, que de realidade passa a pesadelo nos dois últimos movimentos. Essa parte é uma homenagem à Beethoven, cuja descoberta em 1828 foi decisiva para a sua dedicação à música sinfônica. Há várias alusões à sua Sinfonia Pastoral (a 6ª), a começar pela própria tonalidade, em Fá Maior, o canto de pássaros do seu segundo movimento e a imitação de tormenta. No quarto movimento, Marcha ao Cadafalso, em seu delírio de ópio, o poeta é conduzido à execução pelo assassinato da amada inacessível – ao final da marcha, a melodia da idée fixe é brutalmente interrompida pela queda da guilhotina e o tumulto da multidão. No quinto movimento (acrescentado aos quatro tradicionais ao gênero sinfonia), em forma livre, embora rigorosamente construído, segue-se a uma breve introdução, que nos situa na tonalidade, a idée fixe, pela uma última vez, para ser descartada após sua paródia; o compositor apresenta, então, os temas extremamente contrastantes do seu Dies Irae e da Ronde de Sabbat, que se reúnem até precipitarem a música num desfecho arrebatado.
A orquestração da Sinfonia Fantástica é de uma beleza à parte. Berlioz emprega instrumentos nada usuais, como o oficleide, na Marcha para o Cadafalso, o corne inglês, na Cena Campestre, e as duas harpas, que conferem uma sonoridade delicada e cintilante à Valsa, aproveitando em sua plenitude as possibilidades de sua imensa orquestra, com uma inventividade revolucionária no uso de combinações, como de timbales em terças, violinos col legno, e muitas outras sutilezas em prol de uma ‘pintura’ de pormenores da ação dramática e dos diversos estados anímicos do herói. O compositor inscreve-se, assim, na História da Música Ocidental como um marco inovador decisivo para as próximas gerações, com uma peça que surpreende não só pela originalidade, mas pela maneira como imprime unidade a um todo repleto de variações e contrastes, de atmosferas muito díspares, desenvolvendo seu tema com muita organicidade ao longo dos seus cinco movimentos.
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