Musicalização pra quê e pra quem ?

Paul Klee at Birdland

“Na verdade, ouvir é uma atividade do silêncio, uma vivência da
concentração, um abandono de si e gesto puro de entrega; e portanto seria necessário
silenciar-se e concentrar-se, abandonar seu ego e se entregar para saber ouvir: e quem de nós
está tão pronto? “
Rolf Gelewski

Ouvir música, fruir e compreender o fenômeno sonoro, como diz Gelewski, é algo complexo, que nos demanda um engajamento total. O aprendizado musical também consiste em um processo complexo, que vai muito além do domínio intelectual de certo número de conceitos e terminologias. É necessário vivenciar, penetrar o fenômeno sonoro, com todos os sentidos abertos, experimentar, com prontidão, o novo e encontrar o novo a cada repetição, encontrar a interpretação própria de cada música reconhecida. A música comunica sem palavras, comove, move a imaginação. Mas para decifrá-la é preciso muito mais do que um manual teórico. Isso é o que a maioria das pessoas não entende. Por que se estuda música durante anos e sem findar? Porque é matéria para mais que uma vida. E o que liga o ser humano à música? Isso é algo, para mim, sem resposta – embora, possa dizer de pronto que não é o talento, um dote inato específico de alguns iluminados. “A música pertence a todos”.

Foi pensando isso que Zoltan Kodály, compositor, importante pedagogo e etnólogo húngaro, formulou ou sistematizou um método destinado à musicalização massiva, coletiva, no ambiente escolar. Ele e outros contemporâneos, da primeira metade do século XX, como Jean-Jacques Dalcroze e Edgar Willems, dedicaram-se ao desenvolvimento de métodos ativos de educação musical, em que o corpo é re-inserido no processo educacional e a música é considerada sob o ponto de vista sensível e emocional. Com as reflexões das vanguardas históricas do pós-guerra, tornam-se importantes aspectos como o gesto e a intenção, a relação subjetiva entre o compositor, a obra, o intérprete e o ouvinte, a escuta crítica e criativa.

Depois de tudo isso, questiono o termo musicalização, quase sempre considerada uma etapa infantil, introdutória à música séria? Para mim, musicalização em todas as idades e, digamos, por toda a vida. Não com os mesmos métodos, materiais e níveis, claro. Mas como concebe o próprio Dalcroze e muitos adeptos, aplicável e recomendável mesmo em estágios avançados, mesmo a profissionais. Creio que especialmente necessária para introduzir alguém a esse estranho e formidável universo da música, essencial para a compreensão e apreciação de seus elementos primordiais, como as propriedades do som e os parâmetros musicais, ritmo, melodia, intensidade/dinâmica, textura, harmonia. Isso torna o complexo tangível, acessível – e simples a todos como uma brincadeira! Como nem sempre é possível que as aulas sejam em grupo, embora particularmente aprecie os processos coletivos, alguns jogos e exercícios ficam mais limitados, mas, mesmo assim, sempre é possível abordar a música com essa concepção de aprendizagem, privilegiando a escuta e a vivência, o reconhecimento da presença da música no cotidiano. É preciso apenas disposição para descobrir o desconhecido, como a de esticar as pernas para uma trilha em que há muita água para se refrescar.


Aulas coletivas ou particulares: danivihuela_frei@yahoo.com.br

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